RAÇAS

Jack Russel

A VEZ DO INSTINTO

Conheça esse símbolo da criação alternativa que prioriza o instinto em vez do físico.

Olhe para a foto ao lado. Você já deve ter visto essa expressão alegre e esperta em algum lugar. Se não se lembra, tente buscar na memória. Quem não se recorda de Milo, o companheiro de estripulias do ator Jim Carrey no filme O Máskara? Ou então de Wishbone, o esperto cão que interpreta alguns clássicos da literatura na Rede Cultura? Ou ainda o irônico Eddie, o responsável por algumas das melhores cenas do seriado Frasier, exibido no canal por assinatura Fox? Esse cão de imagem cada dia mais conhecida tem nome e sobrenome: chama-se Jack Russel e é um parente distante do Terrier Brasileiro.

Apesar do sucesso em Hollywood, o Jack Russel foi desenvolvido para ter um forte instinto de caça. Séculos de perseguição à raposa na Inglaterra o tornaram muito hábil, veloz e resistente para rastrear e perseguir. Determinado e corajoso, se especializou também em entrar nas tocas e enfrentar a presa para fazê-la sair e ser abatida. O cinema lhe deu papéis divertidos e inteligentes, mas não mostrou o forte instinto de caça e a incrível energia que o torna capaz de correr por horas. Características que são mais do que um mero detalhe. Significam que em um apartamento ele pode causar estragos e destruição se não tiver oportunidade de se exercitar fora dele. E que não convém deixa-lo com outros animais já que ele gosta é de caçar. O maior clube da raça nos Estados Unidos, o Jack Russell Terrier Club of América (JRTCA), promove uma campanha de alerta. "Não aja por impulso: o Jack Russell precisa de pelo menos tanto exercício quanto as raças maiores; não deve ficar só e nem com outros animais", repete a todos Diane Hufnagel, que representa o clube no Estado de Maryland. "Não são raros os compradores que se desfazem dele ao constatar a inadaptação do Jack Russell à vida doméstica demais".

RAPOSAS

No final do século passado, alguns caçadores de raposas foram atraídos por uma nova proposta: aprimorar o físico dos cães de forma organizada. Era a cinofilia nascendo na Inglaterra. Naquela época, o ancestral do Jack Russell chamava-se Fox Terrier, ou seja, "terrier de raposas". Amantes daquele pequeno caçador fundaram o Fox Terrier Club, em 1875, e no mesmo ano obtiveram o reconhecimento do recém-criado The Kennel Club. A beleza e o temperamento alegre e cativamente não demoraram a tornar o Fox Terrier um sucesso no novo ambiente. Segundo o livro How to Raise and Train a Fox Terrier, de Evelyn Miller, um quinto dos cães das exposições inglesas chegaram a ser Fox Terriers. Com o aprimoramento físico, a aparência se tornou mais sofisticada e o instinto de caça diminuiu.

Entre os que continuaram a criar o Fox Terrier privilegiando o temperamento estava o reverendo John Jack Russell, de Devon, na Inglaterra. Devoto da caça às raposas e do Fox Terrier (foi também um incentivador do reconhecimento pelo The Kennel Club), ganhou fama pela habilidade na caça dos cães que criava. O Fox Terrier de Jack Russell conquistou adeptos. Pouco a pouco, os exemplares com alto instinto para a caça passaram a ser conhecidos como Jack Russell Terrier.

A cinofilia oficial cresceu. Em 1911 surgiu a Federação Cinológica Internacional (FCI) para atuar em muitos países. A entidade logo reconheceu o Fox Terrier e, em uma única tacada, a raça se tornou oficial nos países associados. A aparência mudara muito: a cabeça e a expressão eram outras; o cão estava mais quadrado com a altura semelhante ao comprimento do tronco; a silhueta tinha um sofisticado contorno retilíneo em vez do curvilíneo típico da espécie canina.

Por sua vez, o Jack Russell continuava admirado pelos caçadores. Para aprimorar o forte instinto de perseguir raposas, em 1974 eles fundaram o Jack Russell Terrier Club of Great Britain (JRTCGB). O padrão em vez de apontar para um tipo físico ideal, limitava-se a restringir físicos que impedissem o desempenho adequado. Por exemplo: impedia o tamanho excessivo ou que o ombro e o peito fossem largos demais dificultando a entrada nas tocas. As pernas não podiam ser muito curtas para o cão ser capaz de acompanhar as velozes raposas. "Não negamos a importância da estrutura física apesar de não colocá-la como prioridade", confirma o presidente do JRTCGB, Greg Mousley. Resultado: os Jack Russell formam um plantel fisicamente diversificado – há desde altos com pernas compridas até baixos com pernas curtas – mas o instinto de caça é dos mais fortes.

NOVO PARSON

Prestígio e grandeza deram uma importância crescente à cinofilia do The Kennel Club e entidades afins. Exposições internacionais, provas e competições de adestramento e agility cada vez mais atraíram criadores. Nos anos 80, alguns sócios do Jack Russell Terrier Club of Great Britain não queriam mais ficar de fora desde que pudessem criar o cão que amavam. Acrescentaram "Parson" (que significa "reverendo", em inglês) ao nome do Jack Russell e fundaram o Parson Jack Russell Terrier Club, em 1983. No ano seguinte, propuseram o registro ao The Kennel Club de uma "nova" raça. "Alegamos o valor histórico de preservar o Fox Terrier original", conta a secretária do clube, Ruth Wilford. Funcionou. A nova (e ao mesmo tempo antiga) raça tornou-se oficial em janeiro de 1990. seis meses depois, a FCI a reconhecia, oficializando-a em 76 países. O Parson e o Fox Terrier são hoje reconhecidos em boa parte do mundo. A diferença é que o Parson é um pouco mais baixo e um pouco mais longo (o que permite melhor movimentação dentro da toca) que o Fox Terrier moderno, tem o focinho mais curto e maior instinto de caça.

"Nenhum outro terrier tem um instinto de caça tão aprimorado quanto o Jack Russell", afirma Greg. Mas a raça continua fora da grande cinofilia oficial. E nem poderia ser diferente. Priorizar o instinto resulta em um plantel pouco homogêneo sob o ponto de vista físico – e a grande criação cinófila valoriza essa homogeneidade. A maior entidade dos Estados Unidos, o American Kennel Club (AKC), não subordinado a qualquer organização, reconhece o Fox Terrier desde 1885 e, no ano passado, reconheceu o Parson. Mas foi impedido de usar o nome Parson Jack Russell Terrier, patenteado por outro clube que nem o usa: o Jack Russell Terrier Club of América (JRTCA). Portanto, o Parson e o Jack Russell nos Estados Unidos chamam-se Jack Russell Terrier e o criador que prioriza o temperamento o registra no JRTCA, enquanto o que privilegia o físico, no AKC.

MEDIR INSTINTO

Nos Estados Unidos, as aptidões de caçador do Jack Russell são medidas por provas de toca e velocidade, feitas nos chamados trials junto com o julgamento do físico. Os títulos obtidos aparecerão ao lado do nome do cão no pedigree, permitindo avaliar as árvores genealógicas. "O maior evento do mundo sobre Jack Russell é o JRTCA Annual National Trial, com cerca de mil Jack Russells dos Estados Unidos e Canadá", diz Diane.

Para saber a velocidade do Jack Russell, seis exemplares são alinhados amordaçados (para não brigarem entre si), posicionados em frente a uma lebre mecânica. Ao sinal do juiz, começa a perseguição – são 45 a 70 metros, em linha reta, em terrenos planos ou com ligeiro aclive. Algumas provas têm pelo menos quatro obstáculos, cada um com 40 cm de altura. A prova de toca simula a caça após a presa entrar nela. O Jack Russell deve entrar em um túnel de madeira com três a doze metros, enterrado no chão, e atravessá-lo sem exceder o tempo determinado (em geral, trinta segundos). No final do percurso o cão deve demonstrar agressividade contra um rato preso, em uma caixa ou gaiola, por pelo menos meio minuto, rosnando, latindo ou arranhando a gaiola. O cão de categoria avançada deve ainda desobstruir a entrada do buraco, tampada com galhos e folhas. Os clubes organizam também competições de agility, obediência e estrutura.

Na Inglaterra, quem tem Jack Russell exercita-o caçando, informa Greg. "Há corridas com perseguição à lebre mecânica, mas os títulos obtidos não aparecem no pedigree e a participação é pequena".

POUCO CONHECIDO

Tanto o Parson quanto o Jack Russell ainda são muito raros no Brasil. A Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC) reconhece o Parson mas nunca alguém registrou um no país. E nenhum clube independente registra o Jack Russell por aqui. Apesar disso, há algumas dezenas de Parsons e Jack Russells espalhados, a maioria trazida por pessoas que o conheceram em fazendas no exterior. "Tenho um haras e achei que o Jack Russell seria uma ótima opção: é amigo dedicado e alegre e excelente caçador de ratos", conta Nick Lins, dono de cinco exemplares vindos dos EUA. "Quem tem cavalos não quer ratos por perto, por transmitirem a leptospirose".

São poucas as pessoas em nosso país que conseguem identificar o Jack Russell. "A maioria reconhece o cão pela televisão, mas não sabe que é um Jack Russell", diz Gabriel Rocha Santos, que tem cinco exemplares. A confusão com o Terrier Brasileiro é inevitável. "Até a veterinária colocou na ficha que um dos meus exemplares era um Fox Paulistinha", exemplifica. 

DIFERENÇAS

  PARSON JACK RUSSELL JACK RUSSELL FOX TERRIER

Altura

30 cm a 35 cm 25 cm a 37,5 cm 37 cm a 39,5 cm (²)

Peso

6,8 kg a 7,2 kg (²) 5 kg a 7,5 kg 6,5 kg a 8 kg. Ideal: 8,25 kg

Temperamento

Temperamento forte e amigável Instinto para o trabalho. Alegre, ativo, alerta, disposto, corajoso Amável, acessível, corajoso

Cor

Branco Branco Branco (pêlo liso). Branco, preto e castanho (pêlo duro)

Marcações(¹)

Canela, preto ou limão Canela, preto ou marrom Preto, castanho (pêlo liso)

Pelagem

Densa: 1) Lisa; 2) Dura Densa: 1) Lisa; 2) Dura; 3) Quebrada 1) Fina e lisa; 2) Dura e densa

Orelhas

Pequenas, em forma de V, pendentes ou em botão Pequenas, em formas de V, pendentes Pequenas, em forma de V, pendentes

Tronco

Retangular Retangular e alongado Quadrado

Olhos

Amendoados, escuros Amendoados, escuros Pequenos, redondos e escuros

Focinho

Moderado (stop bem marcado) Moderado (stop bem marcado) Longo (stop sutil)

Geral

Linhas arredondadas. Tipo restrito de Jack Russell, quadrado e alto Linhas arredondadas. Grande variação de tamanho. Avaliação principalmente pelo instinto para a caça Linhas retas. Pequena variação de altura. Juízes preferem os maiores

(¹) As marcações são opcionais, exceto no Fox Terrier Pêlo Duro que deve ser tricolor. (²) Estimativa de Ruth Wilford